quinta-feira, agosto 02, 2012

O menino e o Gato Gordo


Era uma vez um menino que, apesar de não se portar sempre bem, de vez em quando recebia do Pai Natal umas notinhas.

O menino, quando recebia as notinhas queria ir logo gastá-las, em Legos e revistas aos quadradinhos, mas o Pai Natal, que era mais esperto do que o menino, não deixava gastar todas, e nunca em Legos (que o Pai Natal, por vezes, também lhe trazia). Deixava-o apenas comprar uma ou duas revistas aos quadradinhos,  e guardava-lhe o resto numa caixinha.

Certo dia, o Pai Natal falou com o Gato Gordo, que passou a guardar as notas do menino. As que estavam na tal caixinha, e outras que o menino ia recebendo, apesar de continuar a não se portar sempre bem.

O menino, quando ficou mais crescido, rapazinho, descobriu os Diabretes da Internet, que vendiam coisas muito interessantes, desde discos com gravações de Gigantes Nórdicos aos gritos, a pincéis da barba (que interessavam ao rapazinho, porque, como estava mais crescido, começou a ganhar pêlos na cara, e noutros sítios), passando por camisas havaianas e até, por livros aos quadradinhos, de que, como sabeis, o rapazinho tanto gosta desde pequenino. Só havia um problema: os Diabretes, para lhe vender estas coisas bonitas, queriam que o rapazinho tivesse um cartão mágico, que só o Gato Gordo tinha!

O rapazinho foi então falar com o Gato Gordo, que lhe deu o cartão mágico. O Gato Gordo chamava ao cartão mágico “VISA”. O cartão era mágico porque, para além de ser aceite pelos Diabretes, permitia que o rapazinho comprasse muitos pincéis da barba e outras coisas mesmo que já tivesse gasto todo o dinheiro, que entretanto, já não era só o que o Pai Natal lhe tinha trazido, mas também o que o rapazinho ia ganhando a trabalhar, e que ia entregando ao Gato Gordo para guardar.

O Gato Gordo explicou ao rapazinho quanto dinheiro o cartão mágico lhe permitia gastar. Era muito! E o Gato Gordo acrescentou ainda que, caso o rapazinho quisesse, podia duplicar esse valor! O rapazinho, prudentemente, pediu ao Gato Gordo para lhe dar um cartão menos mágico, porque não queria gastar mais dinheiro do que o que tinha, e para além disso, tinha receio que os Diabretes tirassem mais dinheiro do cartão do que o que custavam os pincéis da barba. Toda a gente sabe que os Diabretes gostam de fazer dessas tropelias...

O rapazinho foi embora com o cartão mágico e durante alguns anos lá foi comprando coisas aos Diabretes da Internet, e às vezes até aos mercadores que encontrava pelas ruas. Sempre se portou bem com o cartão mágico, e sempre entregou ao Gato Gordo todo o dinheiro que gastava com ele, e sempre, sempre, sempre antes do dia combinado! Aliás, nunca ficou a dever nada ao Gato Gordo. Nada. Nem uma moedinha daquelas mais pequenitas.

Certo dia, quando o rapazinho foi falar com o Gato Gordo, para combinar com ele onde é que o Gato Gordo devia guardar o dinheiro, o Gato Gordo, talvez porque o rapazinho tivesse passado a usar óculos, começou a chamar-lhe “Senhor Doutor”!

-Eu não sou Doutor! – disse o rapazinho.

Então, o Gato Gordo, começou a tratar o rapazinho apenas por “Senhor”, e então o rapazinho já não se importou.

A dada altura, o agora Senhor, resolveu ir dar uma passeio grande, de avião e tudo! Por isso, foi explicar ao Gato Gordo que precisava de aumentar um pouco à magia do cartão mágico, por precaução, pois podia acontecer um imprevisto daqueles que às vezes acontecem nos passeios grandes de avião. O Gato Gordo disse então que Senhor tinha de escrever um papelinho a pedir o aumento de magia, e que depois, ia pensar nisso. Não ficou muito satisfeito, o Senhor, mas lá escreveu o papelito, enquanto o Gato Gordo lhe ia perguntando se estaria interessado noutro cartão mágico, grátis, chamado American Express, mas que tinha de partilhar a magia com o outro, o VISA. O Senhor não compreendeu qual a vantagem, e educadamente, agradeceu e rejeitou a oferta.

Passados uns dias, o Gato Gordo ordenou a um dos seus ratinhos que telefonasse ao Senhor.

Quando o Senhor atendeu, o ratinho estava muito medroso, a falar muito baixinho, cheio de cumprimentos e cuidados “o Senhor, isto, o Senhor aquilo, o Senhor diga, o Senhor ouça...”. O ratinho estava assustado, porque achava que o Senhor ia ficar aborrecido quando lhe dissesse que o Gato Gordo tinha permitido o aumento de magia, mas apenas durante um mês, para se fazer o tal passeio de avião!

O Senhor, de facto, ficou zangado, e começou a discutir com o ratinho. Sabem, é que apesar de o Senhor só querer mesmo o aumento de magia durante um mês achou que o Gato Gordo estava a ser mal educado ao mandar o ratinho dar-lhe aquele recado. É que nem era tanta magia como isso; era muito menos do que o que o Senhor confiou ao Gato Gordo para guardar, e também muito menos do que a magia que o Gato Gordo queria disponibilizar ao Senhor, quando ainda era rapazinho, uns anos antes, quando falaram pela primeira vez! Para além disso, o Senhor explicou que até havia outros Gatos Gordos, que apesar de não o conhecerem e não saberem se ele utilizava cartões mágicos com juizinho, lhe telefonavam a perguntar se ele queria um cartão mágico, dos que têm muita magia!

O ratinho disse ao Senhor que o Gato Gordo tinha mandado dar aquele recado desagradável porque agora os tempos eram outros, e andavam aí três Porquinhos malvados que andavam a racionar a magia.

O Senhor explicou ao ratinho que não tinha culpa nenhuma da vinda dos três Porquinhos, e que já o Gato Gordo e os seus amigos não se podiam gabar do mesmo!

O Senhor ficou então com vontade de mandar o Gato Gordo apanhar no cu, e passar a guardar o dinheiro debaixo do colchão!

 Ah, se ao menos os Diabretes aceitassem dinheiro guardado debaixo do colchão...