O menino e o Gato Gordo
Era uma vez um menino que, apesar de não se portar sempre
bem, de vez em quando recebia do Pai Natal umas notinhas.
O menino, quando recebia as notinhas queria ir logo
gastá-las, em Legos e revistas aos quadradinhos, mas o Pai Natal, que era mais
esperto do que o menino, não deixava gastar todas, e nunca em Legos (que o Pai
Natal, por vezes, também lhe trazia). Deixava-o apenas comprar uma ou duas
revistas aos quadradinhos, e
guardava-lhe o resto numa caixinha.
Certo dia, o Pai Natal falou com o Gato Gordo, que passou a
guardar as notas do menino. As que estavam na tal caixinha, e outras que o
menino ia recebendo, apesar de continuar a não se portar sempre bem.
O menino, quando ficou mais crescido, rapazinho, descobriu
os Diabretes da Internet, que vendiam coisas muito interessantes, desde discos
com gravações de Gigantes Nórdicos aos gritos, a pincéis da barba (que
interessavam ao rapazinho, porque, como estava mais crescido, começou a ganhar
pêlos na cara, e noutros sítios), passando por camisas havaianas e até, por
livros aos quadradinhos, de que, como sabeis, o rapazinho tanto gosta desde
pequenino. Só havia um problema: os Diabretes, para lhe vender estas coisas
bonitas, queriam que o rapazinho tivesse um cartão mágico, que só o Gato Gordo
tinha!
O rapazinho foi então falar com o Gato Gordo, que lhe deu o
cartão mágico. O Gato Gordo chamava ao cartão mágico “VISA”. O cartão era
mágico porque, para além de ser aceite pelos Diabretes, permitia que o
rapazinho comprasse muitos pincéis da barba e outras coisas mesmo que já
tivesse gasto todo o dinheiro, que entretanto, já não era só o que o Pai Natal
lhe tinha trazido, mas também o que o rapazinho ia ganhando a trabalhar, e que
ia entregando ao Gato Gordo para guardar.
O Gato Gordo explicou ao rapazinho quanto dinheiro o cartão
mágico lhe permitia gastar. Era muito! E o Gato Gordo acrescentou ainda que, caso
o rapazinho quisesse, podia duplicar esse valor! O rapazinho, prudentemente,
pediu ao Gato Gordo para lhe dar um cartão menos mágico, porque não queria
gastar mais dinheiro do que o que tinha, e para além disso, tinha receio que os
Diabretes tirassem mais dinheiro do cartão do que o que custavam os pincéis da
barba. Toda a gente sabe que os Diabretes gostam de fazer dessas tropelias...
O rapazinho foi embora com o cartão mágico e durante alguns
anos lá foi comprando coisas aos Diabretes da Internet, e às vezes até aos
mercadores que encontrava pelas ruas. Sempre se portou bem com o cartão mágico,
e sempre entregou ao Gato Gordo todo o dinheiro que gastava com ele, e sempre,
sempre, sempre antes do dia combinado! Aliás, nunca ficou a dever nada ao Gato Gordo.
Nada. Nem uma moedinha daquelas mais pequenitas.
Certo dia, quando o rapazinho foi falar com o Gato Gordo,
para combinar com ele onde é que o Gato Gordo devia guardar o dinheiro, o Gato
Gordo, talvez porque o rapazinho tivesse passado a usar óculos, começou a
chamar-lhe “Senhor Doutor”!
-Eu não sou Doutor! – disse o rapazinho.
Então, o Gato Gordo, começou a tratar o rapazinho apenas por
“Senhor”, e então o rapazinho já não se importou.
A dada altura, o agora Senhor, resolveu ir dar uma passeio grande, de
avião e tudo! Por isso, foi explicar ao Gato Gordo que precisava de aumentar um
pouco à magia do cartão mágico, por precaução, pois podia acontecer um
imprevisto daqueles que às vezes acontecem nos passeios grandes de avião. O
Gato Gordo disse então que Senhor tinha de escrever um papelinho a pedir o
aumento de magia, e que depois, ia pensar nisso. Não ficou muito satisfeito, o
Senhor, mas lá escreveu o papelito, enquanto o Gato Gordo lhe ia perguntando se
estaria interessado noutro cartão mágico, grátis, chamado American Express, mas
que tinha de partilhar a magia com o outro, o VISA. O Senhor não compreendeu qual a
vantagem, e educadamente, agradeceu e rejeitou a oferta.
Passados uns dias, o Gato Gordo ordenou a um dos seus ratinhos
que telefonasse ao Senhor.
Quando o Senhor atendeu, o ratinho estava muito medroso, a
falar muito baixinho, cheio de cumprimentos e cuidados “o Senhor, isto, o
Senhor aquilo, o Senhor diga, o Senhor ouça...”. O ratinho estava assustado,
porque achava que o Senhor ia ficar aborrecido quando lhe dissesse que o Gato
Gordo tinha permitido o aumento de magia, mas apenas durante um mês, para se
fazer o tal passeio de avião!
O Senhor, de facto, ficou zangado, e começou a discutir com
o ratinho. Sabem, é que apesar de o Senhor só querer mesmo o aumento de magia
durante um mês achou que o Gato Gordo estava a ser mal educado ao mandar o
ratinho dar-lhe aquele recado. É que nem era tanta magia como isso; era muito
menos do que o que o Senhor confiou ao Gato Gordo para guardar, e também muito
menos do que a magia que o Gato Gordo queria disponibilizar ao Senhor, quando
ainda era rapazinho, uns anos antes, quando falaram pela primeira vez! Para
além disso, o Senhor explicou que até havia outros Gatos Gordos, que apesar de
não o conhecerem e não saberem se ele utilizava cartões mágicos com juizinho,
lhe telefonavam a perguntar se ele queria um cartão mágico, dos que têm muita
magia!
O ratinho disse ao Senhor que o Gato Gordo tinha mandado dar
aquele recado desagradável porque agora os tempos eram outros, e andavam aí três Porquinhos
malvados que andavam a racionar a magia.
O Senhor explicou ao ratinho que não tinha culpa nenhuma da vinda
dos três Porquinhos, e que já o Gato Gordo e os seus amigos não se podiam gabar
do mesmo!
O Senhor ficou então com vontade de mandar o Gato Gordo
apanhar no cu, e passar a guardar o dinheiro debaixo do colchão!
Ah, se ao menos os
Diabretes aceitassem dinheiro guardado debaixo do colchão...
