A Caga da Música
Hoje tive de ir ao aeroporto Francisco Sá Carneiro. Embora a cada passo vá até lá, só hoje estreei os novos acessos. Uma maravilha! Desde que se sai da A28, temos uma estrada de três faixas, com piso excelente mesmo até ao aeroporto. E mesmo a tempo de receber os turistas que chegam para o mês que vem para apoiarem as suas equipas no Euro 2004!
Por falar em obras marcantes, tenho aqui por casa um caderninho todo catita, encadernado a argolas metálicas, em papel de excelente qualidade, que anuncia orgulhosamente “Casa da Música – Programação Abril, Maio, Junho”. Confesso que só de o ver, me senti mal. Envergonhado. Eu, que tanto gosto de música, que tanto gosto de concertos, nunca fui à Casa da Música. Abrindo o caderninho ao acaso, por cinco vezes, vejamos o que acontece:
Primeira tentativa:
29 de Abril - Grupo Vocal Olisipo - Sala Suggia - 5€
Programa:
Francisco Guerrero Veni Domine et noli tardare
Filipe Magalhães Missa Veni Domine
Ivan Moody El Amor y la Sierra
Fernando Lopes Graça Cinco canções populares portuguesas
José Afonso/Vasco Mendonça Era um redondo vocábulo
(estreia mundial; encomenda da Casa da Música)
Segunda tentativa:
5 de Maio - Luísa Tender piano - Sala 2 - 5€
Parte I
Frei Jacinto Sonata em Ré menor
Carlos Seixas Sonata em Sol menor e sonata em Si bemol maior
W.A. Mozart Sonata em Lá menor
Parte II
Franz Schubert Improvisos op.90
Robert Schumann Novellette op.21 nº8
(na página ao lado anuncia-se o concerto da véspera, de Ute Lemper, concerto esse, que se não tivesse nada melhor para fazer, nomeadamente aos 52,5€ que custava o bilhete, até era gajo para ter ido ver)
Terceira tentativa:
22 de Maio - Orchestre Revolutionnaire et Romantique - Sala Suggia - 30€
Parte I
Joannes Brahms Abertura Trágica
Parte II
Joannes Brahms Concerto para Violino e Orquestra
Joannes Brahms Sinfonia nº1
Quarta tentativa:
2 de Junho - Sequeira Costa piano - Sala Suggia - 20€
Parte I
Fréderic Chopin 4 baladas
ParteII
Fréderic Chopin 24 preludios
Quinta tentativa:
23/24 de Junho - Concerto de S. João - entrada livre
Orquestra Nacional do Porto interpreta George Gershwinn e Ferde Grofé. O concerto tem como solista o finlandês Mika Rännäli
0h00 Praça
“ A noite prolonga-se com grande animação num espectáculo dedicado aos sons pop/rock nacionais, pretendendo um estimulo extra à continuação da festa pelos mais resistentes. (O cartaz deste concerto será anunciado oportunamente)”
E pronto, num instante, percebo porque nunca lá fui. Desde que aquilo abriu, que tivesse tido conhecimento, só houve um concerto que me interessou, que foi o dos Irmãos Catita, mas para o qual não consegui comprar bilhete! De resto, são só concertos para gajos inteligentes, e eu como sou uma besta, resisto barbaramente à tentativa dos programadores da Casa da Música de fazerem de mim uma pessoa mais evoluída. Admito no entanto que fiquei algo emocionado pela cedência que os eruditos senhores fazem, e contagiados pelo espírito popular da noite de S. João trazem a Portugal Mika Rännäli esse embaixador da cultura popular, um verdadeiro Quim Barreiros finlandês, autor de “Quero cheirar o teu arenque” e “A rena da Maria” entre outros clássicos, para logo de seguida, continuarem a maluqueira na praça. A propósito, para um leitor ou outro deste blog, de pior formação cultural, passo a dar a seguinte explicação:
Onde se lê “A noite prolonga-se com grande animação num espectáculo dedicado aos sons pop/rock nacionais, pretendendo um estimulo extra à continuação da festa pelos mais resistentes. (O cartaz deste concerto será anunciado oportunamente)”, fazendo a tradução do português erudito para o português corrente, deve ler-se “Quanto aos javardos que se vão enchonfrar de vinho, cerveja, sardinhas, broa e pimentos e que com a borracheira, por acaso, venham parar às imediações da Casa da Música, vamos ter uma banda a tocar na praça para os distrair e/ou afugentar, não lhes vá às vezes passar pela cabeça subir as escadas e entrar, conspurcando assim o nosso erudito espaço. Ainda não sabemos é quem vai tocar, mas depois em cima do hora nós contratamos os Delfins ou assim...”
Concluindo, daqui a uns anos, quando lhes fecharem a torneira dos subsídios, por andarem a gastar rios de dinheiro com bandas para os amigalhotes irem ver e dar uma de gajo inteligente, que se barriquem lá dentro que a malta depois vê no telejornal.

6 Comments:
Eheheheheheh!!!
Devo confessar que já fui duas vezes, sim duas, à casa da Música! Uma delas a um festival de tunas( devem ter metido uma grande cunha para conseguirem organizar um evento destes) e a outra para ver Diamanda Galas.
São as excepções que confirmam a regra.
Enquanto o Sá da Bandeira continuar abandalhado e dedicado a peças de revista, não temos nenhum espaço na cidade para assistir a concertos decentes!!!
Volta Hard Club, estás perdoado!!!
Abraço,
Mike (BB Moon)
é que é exactamente pela mesma razão que nunca lá pus os pés. Somos duas bestas, mas antes isso do que irmos, de bolsinha á tiracolo, boina e óculo de haste de tartaruga, armados em pseudo-intelectuais, ir gramar a SECA DAS SECAS, e ódespois sairmos de lá e ficarmos os dois á porta da dita cuja, fumando e tossindo violentamente ( e ocasionalmente mandando umas escarretas para o lado), a dizer que foi como se tívessemos levado uma bastonada na cabeça de tão bom que foi, e acharmos que por isso somos mais que os outros :)
Beijinhos, da fã incansável e leitora (algo) assídua
Eu sou cliente da casa da musica. E só não vou la com mais frequencia porque a minha carteira nao permite (apesar de ainda ter desconto pela minha bela idade, o preço das bebidas e de algumas noites é muito alto). Vou á Casa da Musica não para ouvir musica erudita mas para marcar lugar nas noites que mais gosto, nomeadamente, o Clubing que acontece no primeiro sabado de cada mes. Estas noites oferecem a possibilidade de ver os concertos e djs que, neste pais, apenas passam pela capital. Por isso a Casa da Musica tem coisas boas, podem é não fazer o teu genéro. Se me disseres que não satisfazem todos os gostos como a Casa da Musica deveria ser, concordo contigo, mas temos de admitir que ambos pertencemos a minurias, diferentes, é claro, mas pertencemos. O que faz com que não seja facil encontrar num lugar só tudo o que nos satisfaz.
Deixo-te uma sugestão: vai à Casa da Musica e faz uma visita guiada pelo espaço. Se não a visitares pela musica, visita-a pela arquitectura. Vale bem a pena!
joana (insaturação).
Pois... as visitas guiadas... Parece-me ridiculo cobrar 2€ para ver um edificio que custou milhões aos contribuintes portugueses. O mínimo dos mínimos era deixarem ao menos um gajo ver onde derreteram os impostos.
Pus lá os pés 3 vezes: a primeira, ainda em fase de construção, a segunda para ver nitin sawhney e a última thievery corporation. ora esta última foi há cerca de talvez uns 2 anos? como o tempo passa...
Que saudades de ter uma conversa contigo! O teu sarcasmo, genial como sempre!
Bem, pelo menos já sei onde vir matar saudades!!
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