segunda-feira, maio 14, 2007

Fátima, a fraude.

Imaginem que ontem tinha aparecido a Madeleine. Imaginem a histeria que ia ser, com a coincidência com o 13 de Maio! Ia ser a prova provada de que os milagres acontecem, que aos cépticos nada restaria a não ser a conversão ou o fogo do inferno, aparecia o padre Borga no telejornal, e não faltaria quem exigisse a rápida visita do Ratzinger aqui à parvónia. Um circo! Como não apareceu, fica automaticamente provado que a Senhora de Fátima não passa de uma fraude. Nem com centenas de milhar de crentes de velinha ou lenço em punho a rezar, nem mesmo com a cunha de uma personalidade de proa, do calibre do Scolari, a virgem foi capaz de um milagrezito de trazer por casa de fazer aparecer uma menina inglesa! É que nem sequer tem a barreira da língua como atenuante, pois ainda ontem à noite a RTP1 transmitiu (pela centésima vez, aproximadamente) um filme sobre as aparições que defende a teoria de que a santa, qual Papa, era poliglota e falava inglês fluente. Atenção, não quero com isto dizer que os pastorinhos tenham enfiado a galga ao povo! Longe de mim, até porque a Lúcia não tinha ar disso. O que eu acho que pode ter acontecido é o seguinte:
Como sabem, por essa altura a primeira guerra mundial agitava o mundo, trazendo o racionamento e a fome. Nesse dia os pastorinhos, continuando esfomeados depois de terem roído as côdeas de broa que levavam na merenda, e as terem empurrado com uma cabaça de maduro tinto carrascão, reparam no tronco de uma pequena azinheira, mais precisamente nuns belos e coloridos cogumelos que ali cresciam; sendo os cogumelos quatro e eles três, Lúcia, a mais velha enfiou logo uma estalada ao Francisco, que já se afiambrava a comê-los todos sozinho e come ela própria dois (os maiores...) e deixa os mais pequenos para os irmãos. Os cogumelos, venenosos, como já suspeitais, aliados ao tintol, fizeram com que começassem a ver coisas, tendo a intoxicação atingido com particular intensidade a lambona da Lúcia, o que reflecte a única coisa de transcendente desta história, pois é sabido que Deus escreve direito por linhas tortas e castigou (?!) a gula de Lúcia com alucinações mais fortes, tendo a jovem ficado convencida de ter além de visto, falado com a Virgem, tendo esta chegado mesmo ao ponto de trocar segredos consigo, nomeadamente a receita dos pasteis de Belém, como fazer chamadas grátis usando um Ericsson 628 e como tirar nódoas de sangue de uma combinação de chita (porque Lúcia crescia a olhos vistos e mais mês menos mês algum malandrote lá da aldeia lhe esticaria o gadanho e assim sempre se evitavam, ou pelo menos adiavam, falatórios, escândalos públicos e outras desconsiderações). Mas por vezes, mesmo os ditados populares falham, e nesta ocasião foi Deus quem pôs e o homem quem dispôs. Ao chegar a casa, os pastorinhos contaram o que se tinha passado e a Lúcia encaixou logo duas bofetadas do pai, mal contou a estória da combinação, pois este já desconfiava que a filha andava metida com o Tóne, filho do Bexiga, ameaçando ainda ir a casa do Tóne capá-lo, tendo depois desitido ao lembrar-se que o Bexiga era, ele próprio, o melhor (e diga-se, único) capador de porcos da região, e embora fosse bom a manusear a navalha, nunca teria hipóteses frente a um profissional.
Como sempre acontece nos meio pequenos, não demorou meia hora até que o acontecido chegasse aos ouvidos do prior, embora com a estória algo adulterada, tendo os cogumelos sido omitidos e os segredos subtituidos por coisas mais dignificantes, como o fim da guerra e a conversão dos comunitas (tinha-se muito medo dos comunistas nesse tempo! E na altura ainda não havia Odete Santos...). O prior, como homem de vistas largas que era, falou ao bispo e logo ali adivinharam uma maneira bestial de fazer fortunas a vender garrafinhas de água benta, velas votivas, terços e imagens da Nossa Senhora "glow in the dark - Made in China".
Um negócio que agora fica algo ameaçado com a fífia que Nossa Senhora mandou ao não fazer aparecer a Madeleine...
Em jeito de conclusão, peço a todos os leitores aqui do tasco que se abstenham de me encaminhar e-mails e SMS's a pedir informações acerca da pequena. Já procurei em todos os armários e debaixo das camas e não encontrei nada, a não ser duas meias sem par. Se a isto aliarmos uma espreitadela pela janela, não há muito mais que eu possa fazer. Contudo, não se preocupem; se eu a encontar, aviso. Fica aqui prometido!

sexta-feira, maio 11, 2007

A Caga da Música

Hoje tive de ir ao aeroporto Francisco Sá Carneiro. Embora a cada passo vá até lá, só hoje estreei os novos acessos. Uma maravilha! Desde que se sai da A28, temos uma estrada de três faixas, com piso excelente mesmo até ao aeroporto. E mesmo a tempo de receber os turistas que chegam para o mês que vem para apoiarem as suas equipas no Euro 2004!
Por falar em obras marcantes, tenho aqui por casa um caderninho todo catita, encadernado a argolas metálicas, em papel de excelente qualidade, que anuncia orgulhosamente “Casa da Música – Programação Abril, Maio, Junho”. Confesso que só de o ver, me senti mal. Envergonhado. Eu, que tanto gosto de música, que tanto gosto de concertos, nunca fui à Casa da Música. Abrindo o caderninho ao acaso, por cinco vezes, vejamos o que acontece:

Primeira tentativa:
29 de Abril - Grupo Vocal Olisipo - Sala Suggia - 5€

Programa:
Francisco Guerrero Veni Domine et noli tardare
Filipe Magalhães Missa Veni Domine
Ivan Moody El Amor y la Sierra
Fernando Lopes Graça Cinco canções populares portuguesas
José Afonso/Vasco Mendonça Era um redondo vocábulo
(estreia mundial; encomenda da Casa da Música)


Segunda tentativa:
5 de Maio - Luísa Tender piano - Sala 2 - 5€

Parte I
Frei Jacinto Sonata em Ré menor
Carlos Seixas Sonata em Sol menor e sonata em Si bemol maior
W.A. Mozart Sonata em Lá menor

Parte II
Franz Schubert Improvisos op.90
Robert Schumann Novellette op.21 nº8

(na página ao lado anuncia-se o concerto da véspera, de Ute Lemper, concerto esse, que se não tivesse nada melhor para fazer, nomeadamente aos 52,5€ que custava o bilhete, até era gajo para ter ido ver)

Terceira tentativa:
22 de Maio - Orchestre Revolutionnaire et Romantique - Sala Suggia - 30€

Parte I
Joannes Brahms Abertura Trágica

Parte II
Joannes Brahms Concerto para Violino e Orquestra
Joannes Brahms Sinfonia nº1

Quarta tentativa:
2 de Junho - Sequeira Costa piano - Sala Suggia - 20€

Parte I
Fréderic Chopin 4 baladas

ParteII
Fréderic Chopin 24 preludios

Quinta tentativa:
23/24 de Junho - Concerto de S. João - entrada livre

Orquestra Nacional do Porto interpreta George Gershwinn e Ferde Grofé. O concerto tem como solista o finlandês Mika Rännäli

0h00 Praça

“ A noite prolonga-se com grande animação num espectáculo dedicado aos sons pop/rock nacionais, pretendendo um estimulo extra à continuação da festa pelos mais resistentes. (O cartaz deste concerto será anunciado oportunamente)”

E pronto, num instante, percebo porque nunca lá fui. Desde que aquilo abriu, que tivesse tido conhecimento, só houve um concerto que me interessou, que foi o dos Irmãos Catita, mas para o qual não consegui comprar bilhete! De resto, são só concertos para gajos inteligentes, e eu como sou uma besta, resisto barbaramente à tentativa dos programadores da Casa da Música de fazerem de mim uma pessoa mais evoluída. Admito no entanto que fiquei algo emocionado pela cedência que os eruditos senhores fazem, e contagiados pelo espírito popular da noite de S. João trazem a Portugal Mika Rännäli esse embaixador da cultura popular, um verdadeiro Quim Barreiros finlandês, autor de “Quero cheirar o teu arenque” e “A rena da Maria” entre outros clássicos, para logo de seguida, continuarem a maluqueira na praça. A propósito, para um leitor ou outro deste blog, de pior formação cultural, passo a dar a seguinte explicação:

Onde se lê “A noite prolonga-se com grande animação num espectáculo dedicado aos sons pop/rock nacionais, pretendendo um estimulo extra à continuação da festa pelos mais resistentes. (O cartaz deste concerto será anunciado oportunamente)”, fazendo a tradução do português erudito para o português corrente, deve ler-se “Quanto aos javardos que se vão enchonfrar de vinho, cerveja, sardinhas, broa e pimentos e que com a borracheira, por acaso, venham parar às imediações da Casa da Música, vamos ter uma banda a tocar na praça para os distrair e/ou afugentar, não lhes vá às vezes passar pela cabeça subir as escadas e entrar, conspurcando assim o nosso erudito espaço. Ainda não sabemos é quem vai tocar, mas depois em cima do hora nós contratamos os Delfins ou assim...”

Concluindo, daqui a uns anos, quando lhes fecharem a torneira dos subsídios, por andarem a gastar rios de dinheiro com bandas para os amigalhotes irem ver e dar uma de gajo inteligente, que se barriquem lá dentro que a malta depois vê no telejornal.