Fátima, a fraude.
Como sabem, por essa altura a primeira guerra mundial agitava o mundo, trazendo o racionamento e a fome. Nesse dia os pastorinhos, continuando esfomeados depois de terem roído as côdeas de broa que levavam na merenda, e as terem empurrado com uma cabaça de maduro tinto carrascão, reparam no tronco de uma pequena azinheira, mais precisamente nuns belos e coloridos cogumelos que ali cresciam; sendo os cogumelos quatro e eles três, Lúcia, a mais velha enfiou logo uma estalada ao Francisco, que já se afiambrava a comê-los todos sozinho e come ela própria dois (os maiores...) e deixa os mais pequenos para os irmãos. Os cogumelos, venenosos, como já suspeitais, aliados ao tintol, fizeram com que começassem a ver coisas, tendo a intoxicação atingido com particular intensidade a lambona da Lúcia, o que reflecte a única coisa de transcendente desta história, pois é sabido que Deus escreve direito por linhas tortas e castigou (?!) a gula de Lúcia com alucinações mais fortes, tendo a jovem ficado convencida de ter além de visto, falado com a Virgem, tendo esta chegado mesmo ao ponto de trocar segredos consigo, nomeadamente a receita dos pasteis de Belém, como fazer chamadas grátis usando um Ericsson 628 e como tirar nódoas de sangue de uma combinação de chita (porque Lúcia crescia a olhos vistos e mais mês menos mês algum malandrote lá da aldeia lhe esticaria o gadanho e assim sempre se evitavam, ou pelo menos adiavam, falatórios, escândalos públicos e outras desconsiderações). Mas por vezes, mesmo os ditados populares falham, e nesta ocasião foi Deus quem pôs e o homem quem dispôs. Ao chegar a casa, os pastorinhos contaram o que se tinha passado e a Lúcia encaixou logo duas bofetadas do pai, mal contou a estória da combinação, pois este já desconfiava que a filha andava metida com o Tóne, filho do Bexiga, ameaçando ainda ir a casa do Tóne capá-lo, tendo depois desitido ao lembrar-se que o Bexiga era, ele próprio, o melhor (e diga-se, único) capador de porcos da região, e embora fosse bom a manusear a navalha, nunca teria hipóteses frente a um profissional.
Como sempre acontece nos meio pequenos, não demorou meia hora até que o acontecido chegasse aos ouvidos do prior, embora com a estória algo adulterada, tendo os cogumelos sido omitidos e os segredos subtituidos por coisas mais dignificantes, como o fim da guerra e a conversão dos comunitas (tinha-se muito medo dos comunistas nesse tempo! E na altura ainda não havia Odete Santos...). O prior, como homem de vistas largas que era, falou ao bispo e logo ali adivinharam uma maneira bestial de fazer fortunas a vender garrafinhas de água benta, velas votivas, terços e imagens da Nossa Senhora "glow in the dark - Made in China".
Um negócio que agora fica algo ameaçado com a fífia que Nossa Senhora mandou ao não fazer aparecer a Madeleine...
Em jeito de conclusão, peço a todos os leitores aqui do tasco que se abstenham de me encaminhar e-mails e SMS's a pedir informações acerca da pequena. Já procurei em todos os armários e debaixo das camas e não encontrei nada, a não ser duas meias sem par. Se a isto aliarmos uma espreitadela pela janela, não há muito mais que eu possa fazer. Contudo, não se preocupem; se eu a encontar, aviso. Fica aqui prometido!
