quinta-feira, maio 18, 2006

O mangnânimo.

Debelado quase na totalilade o meu problema lombar, já posso estar sentado durante mais tempo e consequentemente, já posso ir ao cinema. Ontem à noite, ao voltar do cinema, decido parar numa bomba de gasolina.
A bomba em causa, tem um acesso estranho, pois quem vem de um dos dois sentidos da rua onde ela se situa, depara-se com um traço contínuo que lhe impede o acesso directo. Para além disso, não há nas proximidades nenhum local onde se possa inverter a marcha legalmente. Uma vez que aquela hora o trânsito não era muito, para não dizer nenhum, resolvo ignorar o traço contínuo (tal como largas dezenas de condutores fazem diariamente, policias incluidos, se bem que estes liguem sempre os pirilampos ao fazer a manobra, quando vão à bomba comprar tabaco ou "A Bola") transpondo-o e entrar na bomba, de forma perfeitamente segura e enquanto tecia considerações acerca da estupidez da sinalização da via.
Mal entro na bomba, reparo num carro patrulha da PSP e em dois agentes do mesmo corpo policial que, certamente em serviço, estavam na loja de conveniência da mesma. Um deles, mal me vê parar o carro, enche o peito, coloca a postura mais vertical que consegue e caminha lentamente para mim.
- Boa noite, Sr. condutor. Vou precisar dos seus documentos e dos da viatura - diz com a voz mais imponente que a sua baixa estatura e ar subnutrido lhe permitem- O Sr. sabe que cometeu uma infração?
Eu sabia. Ele sabia. Todos sabiamos.
-O Sr. condutor não viu o traço contínuo?
Eu vi. Ele viu. Todos vimos. (aliás, caso houvesse dúvidas, curiosamente, ele ainda lá estava)
Na posse dos meus documentos e dos da "viatura", aproveita o ar importante e exibe o "Documento único automóvel" (uma panasquice que substitui o livrete e título de propriedade nos carros novos) ao seu colega de ronda (que estava com ar de quem diz "-Foda-se pá, do que te foste lembrar agora; deixa mas é o gajo ir embora que estávamos bem era sem fazer nenhum") e diz-lhe:
-Estes é que são os novos. Já tinhas visto?
Ele já tinha visto. Eu já tinha visto. Todos tinhamos visto.
O policia pega nos documentos, abre a mala do carro patrulha e saca de um arquivador enorme e de um livro (por momentos pensei que ia ser julgado sumariamente) e pôe-se a estudar a situação. Depois, chama-me e explica-me (três vezes, pelo menos) que eu "cometi uma infracção muito grave (não é grave; é muito grave)", pergunta-me se já alguma vez tinha cometido alguma, ao que eu respondi que não, pergunta-me a minha profissão e dá-me a moldura penal para a infracção por mim cometida "dois meses a dois anos de apreensão de carta; a multa até nem é muito pesada... (fiquei sem saber de quanto era)".
Depois, olha para mim, suspira, e qual César no circo máximo, e porque pelos vistos tenho "ar de bom rapaz", "perdoa-me", não sem antes dizer que "este mundo é muito grande e muito pequeno" e caso me volte a apanhar noutra me multa mesmo.
Obviamente, que não me agradaria nada, como não vos agrada a voçês, ser multados e o que nos vale é que em Portugal é assim. Um gajo sente-se muito mais importante ao perdoar do que ao castigar e os portugueses gostam de se sentir importantes (nem que seja por perder um europeu em casa com a Grécia, mas esses são outro quinhentos e cheira-me que dentro de um mês vai haver pano para mangas). O Sr. agente ontem abandonou a bomba no carro patrulha, mais inchado do que um peru, de sorriso altivo nos lábios que seguravam um cigarro (o que por si só me parece que é uma infracção a um regulamento qualquer; só não sei se é grave ou ligeira).
Eu já sei que cometi uma infracção, e que ele está a trabalhar, mas acho que bastava ele ter olhado para mim e eu tinha percebido correctamente a mensagem. Dispensava-se a "acção didática".
De qualquer forma, prefiro ficar com a carta e poupar o dinheiro da multa.

1 Comments:

At maio 18, 2006 5:19 da tarde, Blogger andreafonso said...

São as circustâncias desta vida que se torna estúpida quando vivida neste país de mangnânimos ou do que lhe quiseres chamar... Já assisti coisas impensáveis, e muitas delas envolvendo orgãos de (in)segurança pública (se resolveres omitir o "in" a palavra pública é logicamente substituida por "politicos, jogadores da bola que ganhem mais de x.xxx €, os próprios agentes da dita autoridade, que sem dúvida é o que eles são, bla bla bla). Uma das mais curiosas foi no aeroporto do Porto, em que um dito agente da autoridade se despachou do passeio onde se encontrava para o centro da via pública (esta sim, era mesmo pública!). Nesse momento a viatura onde me encontrava encontrava-se na fila de trânsito. O tal agente saltou para a frente da viatura, e com o susto que apanhou dirigiu-se violentamente para nós acusando-nos de tentativa de atropelamento. Só visto! Com o video da cena ganhava o tal prémio do Herman do "muita giras" e um almoço à pala... Não quero com isto tirar protagonismo ao teu incidente. Apenas frisar que não se trata de um caso pontual. Isto é diário! Como muita tralha que acontece num país tão pequeno como o nosso.

Abraços, André

 

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