segunda-feira, janeiro 24, 2005

A Guerra das Estricas: O Ataque dos Clones.

Tive há dias o primeiro contacto com uma festa Techno. Os meus colegas tinham-me feito uma descrição tão dramática das festas anteriores que cheguei lá com um colete à prova de balas e uns abafadores de ruído postos… A sério! Afinal, não se justificou. O som, que era apregoado como um misto de estaleiro naval com carpintaria, sinceramente, não me incomodou nem mais nem menos do que qualquer outro tipo de música electrónica. Continuo a achar muito estranho que se juntem mais pessoas para ver uns gajos a tocar gira-discos (sim, sou do tempo dos gira-discos. Pratos, só na bateria ou para por bifes em cima…) do que para ver uns gajos a tocar instrumentos musicais “a sério” ao vivo. Mas esta é a tal velha questão da indiscutibilidade dos gostos…
Ao que parece, tive sorte, pois a afluência foi muito inferior ao costume, o que me permitiu ter um trabalho algo folgado e assim dedicar algum tempo a observar “O Guna, esse anormal…” Os gunas são o grupo de, como lhes chamar… “seres”, mais fascinante que já encontrei. São todos iguais! Ao primeiro contacto é impossível não reparar nos bonés! Ridículos! Estão invariavelmente apertados demais e simplesmente pousados no alto da cabeça, com a pala a inclinada cerca de 30 graus para cima. Este acessório serve para marcar uma atitude e transmitir uma mensagem. Qualquer coisa como “Sou um mentecapto e falho numa tarefa tão simples como pôr um boné na cabeça.” De seguida, ligeiramente abaixo, temos as argolas douradas. A roupa é quase na totalidade retirada do catálogo Nike 2004/05, excepção feita a algumas calças de ganga com aquele ar de quem se sentou num banco de jardim encharcado em lixívia e a alguns casacos e sweat shirts dos Super-Dragões (ao menos isso…) Depois, temos as sapatilhas! Nike Shocks, com amortecedores reactivos às luzes UV, o que dá um belo efeito, principalmente quando conjugados com calças de fato-de-treino, também elas com uma risca vertical fluorescente. Lindo! Infelizmente, estes dois acessórios fazem com que os atropelamentos destes anormais sejam em número substancialmente inferior ao desejável. Faço aqui uma sugestão aos gunas a quem estejam a ser lidas estas linhas: passem a usar soutiens! Vão ver como vos vais ajudar a manter esse peito muito mais inchado e para fora… É que os gajos estão sempre com pose de quem vai bater a toda a gente que se atreva sequer a olhar para o seu boné! Para isso contam com o espírito de alcateia que os une: juntos, são de facto perigosos; em grupos de menos de quatro tomam aquela atitude do “-Estás cheio de sorte! Ia rebentar-te de porrada, mas parece que está a minha mãe a chamar para o jantar…”
Passemos então ao vocabulário da espécie e ao contacto directo de mesma com o ser humano:
“-Ò mano, olhaíunhiskicóoooolan… Ólhaaaaa, botasóumapéeeeedran” Aqui, confesso que estou a exagerar… Nem todos bebem isto. Uns até querem duas pedras, e outros são tão diferentes que nem sequer querem gelo. E há outros que se recusam a utilizar o desrespeitoso “mano” e o trocam por um muito mais adequado “primaço” ou o correctíssimo “sócio”. Mas isto é na fase em que falam. Umas horas depois já só conseguem grunhir e mastigar as bochechas, graças às pastilhas de Ecstasy que comem como se fossem rebuçados. Estas pastilhas têm um outro efeito divertido: no início da noite, se lhes servirem uma bebida com palhinha, levam esse gesto quase como uma ofensa, tirando rapidamente a palhinha do copo, não vá o pessoal pensar que são alguns paneleiros… Passadas umas horas, já exigem a palhinha, e mesmo depois do copo vazio continuam a roê-la furiosamente. Tiques… Outro dado curioso, é que nunca ninguém lhes explicou como se processa uma transacção comercial: em vez de o vendedor lhes fornecer o produto em troca de dinheiro, na ideia deles deve fazê-lo em troca de um “Olha, obrigadão!” Esta frase proferida por um deles, na cotação do grupo, vale pelo menos 6€, ou seja, “unhiskicóoooolan”. E é fácil perceber o que está por detrás disso. Afinal o gajo tem de se rebaixar ao ponto de ter de agradecer, e a dignidade tem um preço, já para não mencionar que habitualmente para adquirirem qualquer coisa bastam mãos hábeis e pés ligeiros. Como aquele que “comprou” umas sapatilhas lá dentro a um “sócio” sem que este tivesse sequer dado por ela…
Finalmente, as fêmeas. As sopeiras. Estas sempre conseguem ser mais heterogéneas. Se há as simples variações cromáticas do guna, onde o azul é substituído pelo cor-de-rosa, com as argolas cinco centímetros maiores em diâmetro, e já com o tal soutien colocado, temos outras que passariam por mulheres perfeitamente normais (e até acima da média) não fosse aquele timbre, pronúncia e colocação de voz de vendedeira do Bolhão…

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Nunca pior!

Ligo a televisão em busca das últimas notícias. Bastam 2 minutos para ficar esclarecido.

Canal 1, Praça da Alegria: Cinha Jardim conta como telefonou para o hospital para se inteirar do estado de saúde de Marco Paulo, aquando da cirurgia a que o cançonetista se submeteu para combater o cancro. Diz que passadas 2 horas torna a ligar, pois a ansiedade havia tomado conta do seu espírito. Nessa altura os responsáveis do serviço acedem em deixar as vedetas conversar ao telefone. Cinha afirma ter dito a Marco Paulo que embora não o conhecesse pessoalmente tinha de o ir visitar ao hospital, história que o “maior cantor romântico português”, como era denominado em rodapé, confirma.

:2, Espaço infantil: menos-mal; ao menos os pequenitos têm possibilidade de se manter a salvo da diarreia televisiva…

SIC, SIC 10 Horas: “Rita conta como venceu um cancro na tiróde”

TVI, Você na TV!: Aqui, confesso que não consegui perceber o que se estava passar. O panasca do Goucha, rodeado de velhas, comenta com estas uma imagem que surge no plasma. Era uma foto de Lili Caneças com uma cama em pano de fundo. Nos lençóis vê-se uma mancha de origem indefinida e uma etiqueta ilegível. Alguém menciona a palavra “ácaros” e a plateia rebenta num coro de gargalhadas.

RTPn, desporto: Filipe Vieira e Dias da Cunha dão conferência de imprensa para anunciar a união de esforços com vista à credibilização do futebol português. Há um ano, Dias da Cunha aquando da visita do Sporting à Luz, não foi ver o jogo, por não se querer misturar com os pouco sérios dirigentes benfiquistas, mas agora, afinal, Filipe Vieira é um homem de uma credibilidade inabalável, só ao alcance de alguém que sendo sócio do F.C. Porto, é presidente do benfica.
Desligo a televisão tranquilamente. Está tudo na mesma.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Ah! Coitados…

A capa do jornal “24 Horas” de hoje é ignóbil! Passo a citar: “LÁGRIMAS NO FUNERAL DE FILHA DE CANEIRA”. Assim. A ocupar toda a primeira página!
De que estariam à espera os senhores dessa publicação? Qual foi o anterior funeral de uma bebé de meses a que esses senhores assistiram em que houve cantares e danças acompanhados de queima de fogos e sardinhadas? É a chamada não-notícia! Mas eu compreendo o porquê da falta de vergonha do editor. É provocada pela mesma falta de vergonha dos leitores. Não têm vergonha de não respeitarem a dor da família e correm a comprar o jornal, para saberem os mais mórbidos pormenores. De preferência quanto custou o funeral! E quem ia a pegar nas asas do caixão, que “era tão pequenino, tadinha da menina! Faço ideia do que aqueles pais devem estar a sofrer!” Não. Não fazem! Eu não faço. Ainda não tenho filhos, e nem sequer quero fazer ideia do sofrimento que é perder um.
Sinto-me envergonhado por dividir o ar com pessoas assim, que em vez de se preocuparem com coisas realmente importantes, fazem questão de carpir as mágoas dos outros. No entanto, não me sobra outra alternativa, num país onde o entretenimento número um é assistir à desgraça alheia. A melhor maneira de constatar isto, é na estrada. Não há acidente de viação que não gere o aglomerar de dezenas de “orçamentistas”.Voltando aos alcoviteiros do 24 Horas: esses senhores são um forte incentivo à censura! Liberdade de expressão sim, libertinagem de expressão, devia dar cadeia. Ou então, escolham outro veículo para propagar a desgraça (olhem, criem um blog, até vos escolho o nome, de borla: http://irrelevanciasdasultimas24horas.blogspot.com). Deixem é as pessoas que querem tratar da sua própria vida tomar o pequeno-almoço sossegadas, sem terem as faíscantes capas a incomodar à porta do café. Que saudades das capas do anormal do Frota e do panasco do Castelo Branco…

segunda-feira, janeiro 10, 2005

F*@k you!

Hoje assisti a uma estranha hipocrisia. Estava tranquilamente a assistir ao interessante Headbangers Ball da insuportável MTV quando, a dada altura, sou surpreendido por um logótipo dos Machine Head que tapava a boca do vocalista da mesma banda quando este dizia um palavrão. Obviamente, o som era também cortado, pelo que não sei se era um “fuck”, um “shit” ou um “bitch”. Pelo contexto, diria que era um “fuck”. Esta mesma estação televisiva tem um programa, do qual não sei o nome, que consiste na deprimente tentativa de duas jovens tentarem por todos os meios ao seu alcance, vacarrices como beijos, apalpões e tetas ao léu incluídas, serem escolhidas por um marmanjo que acabam de conhecer para sua namorada, em detrimento da outra concorrente. Pelo que me disseram há uma versão em que os papeis se invertem, ou seja, os marmanjos tentam galar a jovem. Não sei. A minha curiosidade mórbida não se mantém activa por mais de cinco minutos, pelo que mudei de canal ainda duas cabras andavam de volta de um preto. Mas é no mínimo estranho que os directores da MTV prefiram ter filhas putas a ter filhas que digam puta. Sim, porque as filhas e filhos desses senhores fazem tudo o que aparece na televisão. Deve ser porque os papás estão demasiado ocupados a ganhar milhões a emporcalhar a mente dos filhos dos outros e não têm tempo de lhes dar educação em casa.
Por esta altura, alguns de vocês devem estar a desfilar mentalmente impropérios contra os americanos, mais a sua hipócrita e tacanha sociedade. Permitam-me que entre na vossa mente e coloque mais alguns dados à vossa consideração. Obrigado.
Tive o privilégio de visitar os Estados Unidos da América por duas vezes, e percorri diversas cidades. É verdade que a sociedade americana é regida em grande parte por hipocrisias, e que os parolos americanos são os maiores parolos do mundo. Mas os americanos são mesmo assim. São os maiores. Mesmo bons no que fazem. Seja na parolice, na ciência, na hipocrisia, nas artes, no fanatismo, nas letras, na violência, na economia, na fanfarronice … Como eles dizem: “You name it!”
Tudo isto, como todas as outras coisas tem uma razão de ser. Para começar, não existem americanos. Os colonos tiraram-lhes a tosse mal lá chegaram. Aliás, Estados Unidos da América nem sequer é nome de país! Normalmente chamamos ao país “América” ou “Estados Unidos”. América é um continente, como todos estarão cientes, e Estados Unidos, além de não ser nome, nem sequer é original, pois existem também os do México…
Deixando o nome do país e voltando aos seus habitantes: tínhamos colonos vindos da Europa, uma corja do piorio, formada à base de esfomeados e rufias que o pessoal não queria por cá, que depois compraram uns pretos (desculpem, afro-americanos) para fazerem o trabalho pesado por eles. Entretanto, como tinham um novo país com recursos inimagináveis por estas bandas, prosperaram, e começaram a ser invadidos por mais e mais povos tão diferentes como mexicanos e judeus (os judeus de que tantos de vocês têm pena pelo, de facto, inqualificável genocídio que sofreram nas mãos de Hitler são os pais e avós dos que hoje controlam a maioria das empresas americanas, MTV e fábricas de armamento incluídas). Esta explosiva mistura deu origem a um povo sem identidade própria, sem história própria mas com um orgulho muito próprio, e isso é o que faz com que tenham aquela atitude do “quero, posso e mando”. O que era pacífico, caso eles além de querem, não pudessem nem mandassem. Mas podem e mandam. E vamos insultá-los por isso? Não faríamos nós tudo o que quiséssemos, caso pudéssemos e mandássemos? Faríamos. Fizemos. Por altura da nossa tão querida expansão marítima. Ou pensam que era chegar a África e ao Brasil e pegar e andar enquanto o preto e o índio faziam vénias? Não estava lá para ver, mas quer-me parecer que deve ter parecido um qualquer Vietname, Iraque ou Afeganistão. Sem aviões e mísseis, é óbvio. E sem TV em directo, o que faz com que achemos que foi tudo como vem nas crónicas pagas por El-Rei. Portanto, deixem lá os americanos sossegados. Preocupemo-nos com os portugueses, ou vá lá, com os europeus, porque um dia destes habitaremos uns “Estados Unidos da Europa” ou como na altura se decida em referendo, como este que se avizinha, que irá por em pratica a constituição Europeia (reparem que os Americanos são muito orgulhos da sua constituição…) Tenhamos então calma, porque faremos, ao que tudo indica, parte da maior potência do mundo, que ocupará o lugar dos Estados Unidos da América quando o ciclo da história resolver avançar mais uma vez, e aí, meus amigos, teremos os nossos próprios parolos, hipócritas e todo-poderosos judeus para enxovalhar.